A hora mais bela

A porta se abre. Lá fora, a rua.
No umbral, nós dois. Então, te olho e te beijo.

Você se vira e me dá seu rosto.
E todo o seu cheiro.
Me olha como se eu não devesse ir embora.
Mas lá fora,
é onde a gente pode voltar a se encontrar.

Eu preciso ir.
E você não precisa ficar.
Mas fica.
Pra que um dia eu tenha pra onde voltar.
É nisso que você acredita.
Quem sou eu pra discordar.

Você me entrega um presente.
E eu fico sem graça mais uma vez.
Há sempre um presente em nossas despedidas.
Você me entrega também aquele olhar.

E eu evito, do meu jeito, um abraço.
Eu sempre evito esse toque,
como quem evita se apaixonar.

Um dia, quando eu for grande,
eu te direi obrigado.
Hoje ainda sou tão pequeno.
Saio de casa como quem foge.
Foge só até a esquina,
se arrepende e bate na porta.
E pede perdão.
Só o perdão a gente deve dizer.

Mas hoje, quando te beijei,
você não se virou.
Você nem se importou.

Não sei o que houve,
mas esqueceu o meu presente.
Você sem o seu cheiro.
E eu com uma dor no coração de ir,
de atravessar a rua…
e daquele jeito meio amarelo te sorrir.

Hoje você tão calma, mas não era paz.
Estava daquele jeito.
Como quem aceita que alguém perdeu.
Como quem lembra de alguém que morreu.
E hoje, eu fiquei preocupado.
Porque eu não cresci.
Eu só envelheci.
E disso, você se esqueceu.

Então dei meia volta e bati na sua porta.
Seu olhar pedia mais que um abraço,
pedia uma resposta pra isso que é a vida.
E o que eu podia te dar?
Se tudo o que tenho e que eu sei
foi você que me deu?

Quando você, enfim, morrer, mãe,
Vou voltar.
E trazer o meu obrigado.
Porque um obrigado deve ser sempre adiado.
Deve ser dado só depois que termina toda obrigação.
Pra que reste apenas aquele obrigado
que se confunde com gratidão.

Por enquanto eu fico.
E sou eu agora a te fazer dormir.
e pedir pra você rezar.
que lá longe, nesse lugar só seu,
há sempre o melhor dos sonhos pra sonhar.
Nesse outro lugar que você tanto acredita.
E quem sou eu pra duvidar.

Você já tão velhinha,
já tão esquecida das coisas,
dos nossos dias.
sempre a trocar o meu nome por um outro qualquer.
Feche os olhos, minha mãe,
porque a noite vem chegando.

Pegue minha mão e saiba que tudo foi grande e belo.
Que todas as vezes que fui lá fora,
era como se você assoprasse meus ouvidos
e me dissesse: o mundo inteiro é seu,
e eu te espero,
porque quero ouvir que tudo isso é mesmo
grande e belo.

E como foi.
E agora, de novo, nós dois.
Nessa hora tão bela,
A hora que te leva.
E que me faz ficar.
Porque pela porta, agora.
É você que vai.
E eu que choro ao te ver sair.
Mas eu te espero…

Quando eu dormir, venha me visitar.
E me traga a notícia que esse outro mundo,
que você tanto acredita,
É maior que esse, que todo esse aflito.
Que um dia vem morar com os homens
e nunca vai embora.
Vá em paz, minha mãe.

Lá fora o mundo continua sem mim.
E agora eu continuo sem você.
Sua mão, minha mãe, já não se mexe.
E eu uso a minha pra cerrar seus olhos.
Você no meu colo.
Como eu um dia no seu.

Esse aqui é o meu presente pra você levar.
A certeza de que de você eu recebi o melhor
e o que há de mais belo.
Aquela coisa que nos faz sempre voltar:
O amor.
E agora, enfim, só agora.
Eu já posso dizer:
Obrigado.

mae

Posted in LADO B // Pra que eu não morra invisível, Textos | Leave a comment

Onde tudo vale a pena

Ano passado fui convidado pelo professor Pedro Pletitsch (aquele cara que criou a campanha dos Poupançudos pra Caixa), hoje também consultor da Vale, pra ir até o Maranhão fazer um VT sobre os projetos de sustentabilidade que a empresa desenvolve no Estado. Fiquei uma semana filmando por lá, em lugares paupérrimos, onde o programa Bolsa Família faz bastante sucesso.

Interessante o que as famílias conseguem fazer com o dinheiro e com a falta dele. Mesmo assim, é muito pouco. Os programas “Casa Saudável” e “Nos trilhos do desenvolvimento” são uma forma da Vale e de sua Fundação fomentar algum incentivo social nas áreas em que atua. Os problemas por lá são sérios: falta de saneamento, de infraestrutura básica, de emprego, gravidez precoce das adolescentes, necessidade de água para famílias instaladas pela reforma agrária e por aí vai.

Usando técnicas engenhosas e muito simples, esses programas têm ajudado a resolver grandes problemas cotidianos de muitas famílias em 23 cidades. O VT era de 30s. Resolvi por minha conta fazer esse breve documentário do que vi por lá e sugerir à agência. Eles gostaram. Esta é a versão do diretor. Uma visão mais poética da vontade de tantos em ajudar e da necessidade de muitos em aprender. Há, sim, beleza nesse tipo de encontro e de esforço. E o vídeo é muito mais sobre isso. Gosto dele exatamente por perceber as sutilezas que um pouco de educação e conhecimento faz pela vida de alguém. A produção é da Centopeia Filmes, de São Luis. Muito obrigado à equipe.

Onde Tudo Vale a Pena – Institucional VALE from oruminante on Vimeo.

Posted in Uncategorized | Leave a comment

bia

Consegue ver? Está meio embaçada a foto, mas está aí. Tudo o que precisa está aí nela. Alguém me disse um dia que sua companhia me rejuvenesce… Não é mentira. Mas a verdade é que me preocupa mais. Porque parece que ao meu lado eu te envelheço, logo você, que é ainda tão jovem. E por isso peço desculpas. Você sabe, tenho tentado ser aquele cara que o cachorro que não tenho acharia que eu sou. E isso é difícil demais pra quem procurou no seu egoísmo um jeito de dar conta de si. Amanhã quando acordarmos juntos, fará um ano que dormimos pela primeira vez como namorados de verdade. Quer dizer, a gente pulou essa parte e se casou na estrada, de uma vez, na travessia de Araguari a Uberlândia. Pra nós, nossa aliança é uma ponte sobre um rio. E isso basta. Hoje te busquei de novo lá. Minha vida se tornou um jeito de ir te buscar onde quer que você esteja. Minha travessia até você é minha tentativa de fé. Estar com você do lado é a minha tentativa de estar com um lado bom que talvez eu tenha perdido. Tento achar o lado que falta como quem sabe que disso depende agora o próprio futuro. Um futuro que tenta costurar um passado aberto que nunca dei conta de suportar. Escrevi tudo isso de uma vez, não vou reler, não quero corrigir nada mais… Este texto e essa pressa é o risco que corro todos os dias com você. Que essa ponte não quebre. Que ela suporte o nosso vai e vem. Pra nós, esse não saber onde a estrada vai dar sempre foi nosso motor. Então vamos. Me dê as mãos e vamos, minha querida. Porque se eu te torno velha e você me faz jovem, com certeza se tivermos fôlego e paciência, um dia nos encontraremos no meio do caminho com a mesma idade e os mesmos olhos de saber que tudo o que vimos foi pra poder mostrar pro outro. :)

Posted in LADO B // Pra que eu não morra invisível, Textos | Leave a comment

A parte que falta

A parte que falta from oruminante on Vimeo.

Posted in Uncategorized | Leave a comment

Uma prece para Sol

Posted in Uncategorized | Leave a comment