COMPLETAMENTE LÉSBICA

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Deixo que você me veja.
E ao ser visto, me sinto tocado.
Como os sinos nas manhãs
Enquanto os homens ainda dormem e sonham.

Deixo que você me toque.
E sem perceber, sou revelado.
Esta caverna em que sua luz vasculha minhas pinturas adormecidas.
Tão íntimos agora que, quando você abre os olhos, sou eu que acordo.
E quando você se perde, sou eu que engasgo.

Ainda estou coberto.
De panos e de vergonha.
Dos mil olhos do mundo sobre mim.
Mas você sabe o que vê ao me sorrir.
E eu o que já não escondo ao me despir.

Você me põe de costas pra que eu não te veja.
Mas sua respiração na minha nuca,
E seu ventre na minha bunda,
Te relevam a forma
E sua umidade.
Enquanto você se molha,
Me leva junto e me lava.
O batismo de uma alma nova.

Que pistas deixei pra que você me achasse?
E agora já não sei me abrir sem sua chave.
Sem sentir o cheiro que você deixa quando me visita.
E me limpa.

Você me come.
E eu te dou de comer.
Como quem dá o pão a um faminto,
Eu que sempre fui fome, agora devorado.
Empanturrado desse eu que você engravidou em mim.

E nós juntos.
Na pele, nos quadris, sustentados pelas coxas.
Na espera latente que um costura no outro.
E depois no grito e no riso que derramamos quando tudo entorna da gente.

Como se todas as quinas de sua virilha fossem um povoado a gritar e a me procurar pela noite.
Como se fosse eu a fugir e você a me percorrer enquanto todos já desistiram de me achar.

Já te esperava a tanto tempo que me desbotei.
E então eu na sua boca e seus dedos a me pintar de novo.
Seus seios a mostrar que somos iguais e que somos dois.
Eu, um homem, enfim, acordado.
Completamente lésbico por você.

Porque você faz de mim a mulher que também sou.
E o homem que nunca fui.
E tem sido assim, menina.
Todas as constelações derrotadas pelo brilho dos seus olhos quando me ofereço.

Por Renato Cabral

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Ainda tão pequena

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Como uma paisagem tão antiga
Numa viagem esquecida,
Me recordo deste poema nunca escrito.
E faço esta promessa de lembrar.
De te escrever uma vez mais…

Busco por um instante a honestidade pra me contar.
E descubro que só pelas metades soube viver.
É quando você passa a me ouvir.
E eu a entender.

Sou esta lousa já tão escrita,
Onde você me acha e se põe a ocupar esses pequenos espaços que nos faltam.
Você, uma mão virgem à espera de um desenho inédito.
Eu, ansiando que em suas linhas possa ver meu rosto.

Você, ainda só um rabisco;
Eu, a fragilidade destes traços tardios.
E tudo dá a forma ao cercado da minha agonia.
E à insônia da sua solidão.

Dois desocupados a ocupar a mão no mesmo lápis;
Quebrado e sem ponta.
Como a esperança do nosso encontro.
O texto que só será escrito no silêncio do nosso olhar no escuro.
E na mesma vontade de dividir o que não podemos falar.

Descemos juntos ao calabouço, então.
Porque é no escuro que nossas mãos sabem olhar.
E nos encontramos de novo abstratos
E nos visitamos quebrados em nossos absurdos.

Nós como um baralho de cartas iguais.
Sem saída.
Sozinhos, sem ninguém pra nos marcar;
Ou nos jogar.

A lembrança de nossos amores nas canelas.
Como se fossem algemas esquecidas numa cadeia.
E cada um a olhar pro outro como se fossemos chaves.
Como se fossemos fáceis.

Como viveremos, minha querida?
Quantas vidas ainda a serem grifadas pelo caminho que cada texto faz.
Quantos versos proibidos na lousa dos outros.
Para de novo serem apagados.
Para sempre sermos perdidos.

Essa viagem e a gente junto.
Eu na proa gritando com o vento e o destino.
E você com a cabeça em meu colo a me lembrar
Que só podemos vencer o mar dormindo.

E agora esse ataque de sal aos olhos.
Uma correnteza de incertezas a pingar nossa cachoeira de medos.
Nós, aflitos por vitórias,
Por beber no fim da tarde o sabor do nosso sangue nos ombros do outro.
De onde nos suportamos.
De onde supomos ver melhor.

Dois atrasados numa viagem de ida…

Você partindo e eu me despedindo de ninguém na minha volta.
Para tentar te achar no meio do caminho.
De novo…
Onde deixo de estar no meio.
E encontro nas suas mãos as linhas do meu início.
E passo a ser mais.
A ser, enfim, mais que só a metade.
Eu, enorme, acolhido por você ainda tão pequena.

*por Renato Cabral (foto e texto)

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Quando você morreu

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A primeira vez que morri eu era ainda tão pequeno.
E tão pequeno eu ainda não sabia segurar os restos de algo tão grande como é a morte.
A última vez que morri foi ontem,
Porque é impossível continuar vivo quando você também mata.
Te enterrei em mim para que pelo menos um de nós pudesse ficar.

No princípio fui essa cegueira na noite.
Mãos a procurar um sulco na parede de um quarto escuro,
Para ganhar o lado de fora.
Eu forjando dentro de mim essas palavras,
Como se fossem uma chave.
Ou um pé de cabra.

E agora sei que cada página está escrita entre dois crepúsculos.
A desbotar no intervalo eterno de uma sombra sem fim.
E agora, e de novo, a contradição do tempo:
Este assombro de saber que enquanto tudo escorre,
Há algo ainda a ser compartilhado;
Que seja este pouco de saudade, minha querida.
E um tanto de culpa.

A gente tendo que atravessar o dia atrás dessas pequenas revelações.
De que o mundo é sempre maior que nossa caixa de passados.
Mas sempre menor que o gosto com que temperamos o futuro.

Sou este rio já tão seco,
A correr dentro de mim.
A sensação de que ele deságua no alto de uma montanha,
Onde é tão difícil chegar.

Ainda busco o interruptor neste quarto sem frestas.
Para subir o morro e saber que só lá em cima não será mais noite.
Vou como quem sobrevive a um prédio que já caiu.
Como quem corta o fio de uma dinamite,
Que já explodiu.

Meus sonhos são esse rio invertido.
Porque meu destino nunca foi o mar.
Era te encontrar no início de novo,
No alto do morro,
No tempo redescoberto.
E na memória, já tão suja,
De saber que nunca estive pronto para voltar.
Nem para te amar…

Não voltará nossa voz a gritar esse choro tardio de um desencontro.
Porque eu te matei.
Mas fui eu que morri.

* Por Renato Cabral

 

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Azul

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Ela acende ao meu lado,
Talvez nosso último cigarro.
E eu ouço o som do futuro.
O barulho ensurdecedor de que ela vai partir.
E é nessa esquina que ela já não está,
Que agora eu termino esse trago.

Ela chegou como chegam as graças não pedidas nem rezadas.
E eu que não tinha feito nenhuma promessa, me peguei devedor.

Ela não sabe que escrevo pra ela.
E nem eu. Porque isso não é uma carta.
É uma forma de pagar esta dívida,
Me avisando que um dia, lá na frente,
Eu tenho que reencontrá-la…

Quando ela partir, ficará a cor dos seus olhos no céu.
Por isso chove tanto e por isso tantas nuvens.
Talvez seja o jeito dela me avisar que também pensa em mim.
E sofre.
Que também está aqui de alguma forma.

Eu posso escrever pra sempre este texto.
Porque o céu sempre volta a estar azul.
E eu cheio dessa promessa.
Porque o céu não tem fim.
Assim como ela agora em mim.

Ela é como esse pouco de água que encontro no meio do deserto.
De areias amarelas e vermelhas, como seus cabelos.
Não é só um jeito de me salvar.
Não é só um jeito de me fazer acreditar em milagres.
É o jeito dela de me mostrar que todas as travessias valem a pena.
Até a nossa, que parecia impossível.

Sentando na beira desse lago de águas a refletir o azul de cima,
Me lembro dela.
E pela primeira vez me calo.
Meus olhos, castanhos, pingam este mel em tudo.
E tudo fica doce e melado.
Ridículo, como é o amor e suas coisas.
E tudo vira a gente.
E a gente já não sabe onde é o céu,
Nem onde é o nosso encontro.

Mas depois tudo fica preto, como uma tempestade.
Assim como é a lembrança depois que o amor parte.
E a solidão nasce.

Este é meu jeito de estar com ela.
Chorando onde seus olhos acabam.
E os meus recomeçam essa travessia.
Para lhe esperar no futuro…
Onde ela já me espera.

* Por Renato Cabral

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Ir

photo-30Partir, minha querida, é o parto dos pés.
É quando os pés partem e partem o chão.
De um lado, os que vão.
Do outro, toda solidão.

Ficar é o contrário de ir.
É também um modo de partir.
O jeito mais triste de ser.
Viver em marcha ré.

Não há como parar um sorriso.
Nem o caminho que ele desenha no rosto.
Porque RiR é sempre ir…
Se você for pra frente ou pra trás.
Tanto faz.

A alegria é a largada para onde queremos voltar.
O lugar de sempre onde a gente põe o futuro.
O lugar que sobra quando a gente inventa um passado.

Me proponho a tarefa de te seguir.
E percorrer as trilhas de sua fuga.
E é assim que me encontro.
Nesse labirinto.
Onde descubro que nesses traços que sempre vão,
E nunca chegam a lugar nenhum,
Está desenhada minha face.
Uma cara sem um caminho.
Nem uma saída.

Gengivas precisam dos dentes para sorrir.
Assim como a dor também, para fazer doer.
Então, um pouco de respeito pelas bocas abertas.
E as que cantam.
Mas também pelas tantas banguelas.
E as que sangram.

Quando você partir.
Terá deixado uma boca deserta.
Já sem dente nem dor.
Só com a certeza da espera.
E de uma gengiva amarela.

Ainda espero o homem que fui voltar quando você fizer o caminho contrário.
O contrário de ir.
Para quem sabe, um dia, de novo, eu posso voltar a sorRiR.

* Por Renato Cabral

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