BOM-DIA no ar. Assista!

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O sol está quente hoje. São 13h. Você deve estar no trabalho, cheio de barulhos e de gente; cheio da rotina de todos os dias, que transforma homens em armários de aço para sempre. Alguns, no entanto, conseguem se libertar e alcançar um pouco de alívio; quem sabe, até aquele mínimo de redenção, que seja no inferno… Talvez agora, aí, não seja a melhor hora pra ver este filme, que tem 20min. Mas guarde esse link, espere esta quinta com cara de segunda terminar e assista. Aumente o som, clique no HD, espere tudo carregar e apenas assista, na tela cheia. Talvez  você não sinta nada. Talvez nem faça sentido pra você. Talvez ache um lixo ou só mais um desperdício de tempo. Mas se fizer sentido e de alguma forma o filme te tocar, nos ajude a compartilhar mais uma vez esta história, que, de alguma forma, é a minha, mas também é a sua.

ASSISTA ao FILME:

BOM-DIA short movie from oruminante on Vimeo.

 

SOBRE O FILME:

“Uma porta. Uma chave.
Se ele entrar, terá dito sim à vida medíocre de todos os dias.
Se fugir, terá sua liberdade… e a redenção no inferno.”

Direção: Renato Cabral
Roteiro: Renato Cabral, Muryel De Zoppa e Carlos Segundo (Tchê)
Direção de fotografia: Cris Adonis
Operador de RedOne cinema digital: Artur Graciano
Edição e finalização: Luis Felipe Pimenta
Trilha sonora: Giordano Pagotti
Sound Desing, Mixagem: Rodrigo Nepomuceno

Direção de Arte e Figurino: Ingrid Oliveira
Produção: Tati Rangel
Assistente de Produção: Leandro Guimarães, Felipe Teodoro e Theago Iozzi.
Maguiagem: Cadu

Atores: Samuel Giacomelli, Narlo Santos, Vinícus Silva
Atrizes: Ana Flávia Felice, Ana Zumpano, Priscilla Bello, Dinah Nascimento, Lígia Lima, Luiza Sodré, Reylla Garcia, Jamile Salomão, Lídia Tostes, Paula Wolkers, Mia Carneiro.

Foto Still e Making Off: Júlio Andreo, João Paulo Bittencourt e José Neto
Elétrica: Betinho
Maquinistas: Zé Maria e Espicha
Motorista: Marildo
Coordenador Logístico: Brayerson Toledo Neto
Arte DVD – Davi Miguel, do site SomVinil

Agradecimento: Paula Bernardes, Imaginare Filmes.

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DE REPENTE, A ALMA CANSADA

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* e uma música pra te ajudar a chegar até o final – http://www.youtube.com/watch?v=soZ1yCGEcxk&list=FLzcD6VdKGxw0GdPBNLht3tg

Exausto de chorar sempre a mesma lágrima.
A que nasce dos seus olhos.
E pinga dos meus.
Te digo adeus.

O adeus que não deveria ser dado.
Nem avisado.
Para que a tristeza não vire saudade.
Nem drama. Nem nada mais.

Quando de você restar
Apenas o suspiro de si mesma.
Sozinha e solitária.
Você terá a resposta sobre o que é sofrer.
E a lição que esta perda traz.

Vai ver que todo caminho perdido,
É um atalho para um buraco.
E todo buraco, um caminho
Para se odiar mais.

Eu aqui, no meio do mundo.
Dessa rotina que tira tudo, tão inválida.
E você com a sorte de não precisar de nada.
Mas estéril e imóvel no meio do caos.

Eu lutando contra o azar.
E você na sua cama de paciências.
No meio desses de repentes que a vida traz.
Traz os filhos,
Os sustos.
Os mortos.
Alguém mais?

Minha boca na sua como um cadeado.
Calando suas bobagens.
Minha mão como uma espátula na sua cara.
Arrancando o peso da voz de um outro que te cala.

Mas nem assim você canta.
Nem reclama sua cólera.
Nem resmunga sua cólica.
Nem grita. Nem nada.

Finja, então, minha querida.
Que é muda.
Para que seus olhos não pressintam o medo.
De saber que só vive de verdade quem sabe correr e berrar.
Para que você tenha vergonha de voltar para o mesmo lugar.
Este que você sempre estará.

Então,
Bem depressa, se despeça.
De cada segundo vivido.
De cada gemido perdido.
Como foi comigo.
E ninguém mais.

Chega dessa fé que nos une.
Que se chama dor.
Desse gozo preto.
Que já foi amor.

Todo por do sol como a hora maldita.
Toda borra do café ausente,
Como a nódoa de nossa alma.
Toda memória como a queda de uma escada.
E seu silêncio como um pedido de ajuda.
Mas meu texto, como um beijo de paz.
E o martelo de um adeus.
Assim, de repente.
E nunca mais.

Por Renato Cabral
www.oruminante.com.br

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PARA QUANDO VOCÊ FOR EMBORA

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* e um música para ler junto - http://www.youtube.com/watch?v=jrIRo3fG9xg

Quando já não me restava nada,
Porque tudo havia sido alcançado
Ou deixado pra trás,
Veio a notícia que você iria embora.

Quantas mãos de um homem são necessárias
Para limpar um leito que sangra?
Quantas noites em claro são precisas
Para iluminar uma alma que chora?

Quando você partir,
Sobrará saber que tudo foi pra você.
Até as frases que risquei do texto.
Até a vergonha que arranquei do peito.

Meu futuro é uma âncora num porto.
A prender o barco que não vai.
A calar a poesia do horizonte.
Um fantasma no silêncio do cais.
Pela memória de nós dois.

Ando sozinho e me lembro de tudo.
A noite grudada em mim como um guardanapo.
Resíduo de seus ruídos nos meus dentes.
Tenho medo de pisar nas estrelas.
E apagar o caminho que vai te guiar.

Ficam meus olhos.
A olhar agora pro lado de dentro.
Queimando feito vela de aniversário.
Cheios de esperança e pedidos.
De uma vontade tão grande de te resgatar.

Há um eco quando me calo.
Escuro feito boca de canhão.
A chorar a falta das guerras.
Das brigas e das tréguas.
Torto de ferrugem.
Frio como um poeta morto.

A persistência de tudo que não sara.
Nem cheira como antes.
Isso que os loucos dão o nome de tormento
A música, de lamento
E os distraídos de tropeço.

Vai ficar essa curiosidade
Com o dia de nossa morte.
Esse desejo com sua sorte.
E um vulto em nosso lençol
Onde dois amantes mortos
Tocavam seus pés ao amanhecerem.
Até o fim dos tempos.
Do tempo em nós.

Restará essa mancha de você na minha sede ao acordar.
E o desejo pela companhia para beber até o dia chegar.

Ainda assim, essa valsa.
Uma última.
Dance comigo, minha querida.
Porque o melhor momento da música
É a parte invisível
Que vem antes do baile
E de qualquer promessa.
Ou despedida.

Você ficará por muito tempo.
Em tudo que sobra.
E que hoje me devora.
Porque está no seu lugar.
Você ficará, enfim, no pior dos medos.
Naquela coragem insana
Que não tenho mais para ir te buscar…

Por Renato Cabral

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O QUE APRENDI COM UM PÉ DE MAMÃO

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Chego à cozinha. Nada demais. Ali, as coisas de uma cozinha. Repito os gestos de sempre, sem ritual nem fome. Vou à geladeira, ao fogão e à pia. O filtro à direita, a janela e o mundo à esquerda. A porta, que leva ao esquecimento e minha cama, atrás de mim. Mas hoje, só hoje, uma coisa inédita, que sempre esteve ali, mas que eu não podia ver: um pote te rapadura.

Outro dia foi o pé de mamão. Lá no quintal, de uma hora pra outra, no minúsculo pedacinho de terra que ainda há, no canto dos cantos, um pé de mamão. Maior que eu. Mais saudável que eu. Aquele pé de mamão, insistindo em não morrer, mais uma vez. O pé de mamão que eu nunca tinha visto antes, mas que sempre estivera ali.

Volto à cozinha. Há agora, sobre o fogão, uma panela com mexido. Arroz, feijão, ovo, alguma sobra. Me dou conta, como num susto, que toda noite há sempre esse mexido a me esperar. Mesmo que eu não vá comer. Mesmo que eu não esteja em casa. Entro na cozinha, não vejo as coisas. Não vejo o mexido. Mesmo assim como e vou deitar. E me esqueço de tudo. De tudo que já nem lembrava. E começo de novo, no outro dia…

Mas hoje, antes de dormir, me dei conta que o pote de rapadura, o pé de mamão e o mexido são uma prova de amor. Todos, são o jeito que minha mãe arrumou de não esquecer de meu pai, que já morreu. Porque era ele que sempre arrancava o pé de mamão que insistia em nascer outra vez no mesmo lugar. Porque era ele que fazia mexido pra comer à noite e que ela sempre reclamava de ter que limpar a panela. Porque era ele que adorava rapadura para tirar do dia, o gosto azedo da desgraça, que todos carregam antes de dormir… e também poder esquecer.

Mesmo depois de morto, esse é o gesto que ela ainda persegue e mantém, todos os dias. E só agora, pude perceber. Hoje, mais do que antes, senti a presença dele por aqui. Não é saudade nem dor. É só a sensação, que ele sempre esteve por perto; no mexido, no pé de mamão e nos olhos da minha mãe, tão tristes, que esta noite pareciam querer esquecer um pouco de tudo isso antes de ir deitar.

E, enfim, um último pensamento. Me dou conta, neste instante, que o pote de rapadura nunca diminui. E me lembro: nem minha mãe nem eu gostamos de rapadura. O que me leva a pensar que toda semana ela joga tudo fora só pra poder enchê-lo de novo. Esta é a lição que minha mãe deixou pra mim. Que a saudade não exige esforço. Mas não deixar de amar, muito. Pode levar uma vida inteira para não morrermos.

Por Renato Cabral

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QUANDO ÉRAMOS FIÉIS

vinho

Para ouvir ao ler – http://www.youtube.com/watch?v=oMe6pVycUOM&list=FLzcD6VdKGxw0GdPBNLht3tg

Em noites assim, quando fico sozinho a olhar pra este céu sem ninguém, é que me ocorrem essas bobagens de menino.

Quando as estrelas parecem sentinelas de uma ideia morta, é que chego a acreditar que eu poderia voltar no tempo pra começar tudo de novo.

Você acreditaria se eu começasse tudo de novo? Você sorriria daquele jeito se eu, como um super-homem caipira, girasse ao redor da Terra para fazer o tempo voltar? Tudo para poder chegar àquele dia e te conhecer de novo?

Se você soubesse que aguentei os outros homens com que você se deitava só para que eu pudesse acreditar que o último gozo seria meu, você dormiria comigo mais uma noite? E acordaria sem saber se ainda sonha, ou se ainda voa?

Se numa tarde dessas, eu entrasse de novo no seu trabalho sem você saber, fingindo ser o entregador de flores, só para ficar por perto, você receberia meu cacto, que é sempre mais feio que um lírio, mas dura muito mais?

Não chore e não sofra, minha amiga, porque os motivos só acabam quando as promessas se cumprem ou se partem. E ainda falta algo, falta tanto. Porque só a morte encerra essa promessa que cada um passa a ser ao existir.

E se tivermos que sofrer, é sempre bom saber que chorar, ser triste e pingar, são também um jeito bonito de estar por aqui. Era isso que faltava para que eu entendesse que ao seu lado vivi tudo, até a tristeza mais difícil de todas, aquela que vê o amor acabar e que não permite fazer o tempo voltar.

Mas eu te pergunto. Você acreditaria se eu disser que é possível voltar no tempo para te conhecer de novo? Porque o amor acaba mesmo. Mas todo recomeço não tem fim. Você ia se arrepiar se eu disser que é possível. Toda noite, desde agora, isso é a única coisa que peço. Deve existir algo no universo que conceda desejos, como aqueles pedidos quando eu descobria um cílio caído do seu olho.

E se eu morrer velho, já sem você por perto, e o dia de recomeçar nunca chegar, saiba que valeram todas as lembranças. Que não houve nada mais forte do que a paz e o encontro que tive ao seu lado, e que não houve liberdade maior do que ter dito eu te amo. Sempre vou te amar, darling. E ainda é noite… hora de rezar.

Por Renato Cabral

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