Antes que os pés toquem o céu

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Onde as lágrimas nascem

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A trilogia do esquecimento – a saudade

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COMPLETAMENTE LÉSBICA

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Deixo que você me veja.
E ao ser visto, me sinto tocado.
Como os sinos nas manhãs
Enquanto os homens ainda dormem e sonham.

Deixo que você me toque.
E sem perceber, sou revelado.
Esta caverna em que sua luz vasculha minhas pinturas adormecidas.
Tão íntimos agora que, quando você abre os olhos, sou eu que acordo.
E quando você se perde, sou eu que engasgo.

Ainda estou coberto.
De panos e de vergonha.
Dos mil olhos do mundo sobre mim.
Mas você sabe o que vê ao me sorrir.
E eu o que já não escondo ao me despir.

Você me põe de costas pra que eu não te veja.
Mas sua respiração na minha nuca,
E seu ventre na minha bunda,
Te relevam a forma
E sua umidade.
Enquanto você se molha,
Me leva junto e me lava.
O batismo de uma alma nova.

Que pistas deixei pra que você me achasse?
E agora já não sei me abrir sem sua chave.
Sem sentir o cheiro que você deixa quando me visita.
E me limpa.

Você me come.
E eu te dou de comer.
Como quem dá o pão a um faminto,
Eu que sempre fui fome, agora devorado.
Empanturrado desse eu que você engravidou em mim.

E nós juntos.
Na pele, nos quadris, sustentados pelas coxas.
Na espera latente que um costura no outro.
E depois no grito e no riso que derramamos quando tudo entorna da gente.

Como se todas as quinas de sua virilha fossem um povoado a gritar e a me procurar pela noite.
Como se fosse eu a fugir e você a me percorrer enquanto todos já desistiram de me achar.

Já te esperava a tanto tempo que me desbotei.
E então eu na sua boca e seus dedos a me pintar de novo.
Seus seios a mostrar que somos iguais e que somos dois.
Eu, um homem, enfim, acordado.
Completamente lésbico por você.

Porque você faz de mim a mulher que também sou.
E o homem que nunca fui.
E tem sido assim, menina.
Todas as constelações derrotadas pelo brilho dos seus olhos quando me ofereço.

Por Renato Cabral

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Ainda tão pequena

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Como uma paisagem tão antiga
Numa viagem esquecida,
Me recordo deste poema nunca escrito.
E faço esta promessa de lembrar.
De te escrever uma vez mais…

Busco por um instante a honestidade pra me contar.
E descubro que só pelas metades soube viver.
É quando você passa a me ouvir.
E eu a entender.

Sou esta lousa já tão escrita,
Onde você me acha e se põe a ocupar esses pequenos espaços que nos faltam.
Você, uma mão virgem à espera de um desenho inédito.
Eu, ansiando que em suas linhas possa ver meu rosto.

Você, ainda só um rabisco;
Eu, a fragilidade destes traços tardios.
E tudo dá a forma ao cercado da minha agonia.
E à insônia da sua solidão.

Dois desocupados a ocupar a mão no mesmo lápis;
Quebrado e sem ponta.
Como a esperança do nosso encontro.
O texto que só será escrito no silêncio do nosso olhar no escuro.
E na mesma vontade de dividir o que não podemos falar.

Descemos juntos ao calabouço, então.
Porque é no escuro que nossas mãos sabem olhar.
E nos encontramos de novo abstratos
E nos visitamos quebrados em nossos absurdos.

Nós como um baralho de cartas iguais.
Sem saída.
Sozinhos, sem ninguém pra nos marcar;
Ou nos jogar.

A lembrança de nossos amores nas canelas.
Como se fossem algemas esquecidas numa cadeia.
E cada um a olhar pro outro como se fossemos chaves.
Como se fossemos fáceis.

Como viveremos, minha querida?
Quantas vidas ainda a serem grifadas pelo caminho que cada texto faz.
Quantos versos proibidos na lousa dos outros.
Para de novo serem apagados.
Para sempre sermos perdidos.

Essa viagem e a gente junto.
Eu na proa gritando com o vento e o destino.
E você com a cabeça em meu colo a me lembrar
Que só podemos vencer o mar dormindo.

E agora esse ataque de sal aos olhos.
Uma correnteza de incertezas a pingar nossa cachoeira de medos.
Nós, aflitos por vitórias,
Por beber no fim da tarde o sabor do nosso sangue nos ombros do outro.
De onde nos suportamos.
De onde supomos ver melhor.

Dois atrasados numa viagem de ida…

Você partindo e eu me despedindo de ninguém na minha volta.
Para tentar te achar no meio do caminho.
De novo…
Onde deixo de estar no meio.
E encontro nas suas mãos as linhas do meu início.
E passo a ser mais.
A ser, enfim, mais que só a metade.
Eu, enorme, acolhido por você ainda tão pequena.

*por Renato Cabral (foto e texto)

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