Um pôr-do-sol para meu pai


Meu pai e minha mãe.

Hoje é 13 de maio, terça-feira. Estou a meio caminho do hospital e rabisco estas linhas para meu pai. Escrevo rápido para que ele possa me ler. Para que eu possa, enfim, dizer o que não pude por 28 anos. Mas ele não pode me ouvir. Agora ele está numa sala de cirurgia enfrentando o momento mais grave de sua vida, pregado àquele limite que não conhecemos bem, em algum lugar entre o nada e a existência que persiste. Há médicos com ele, mas ele nunca esteve tão sozinho. Nem eu.

Eu nasci num dia 27 de agosto. Fazia frio e foi quando o sol se punha. Na véspera de me ter, minha mãe ainda não tinha o dinheiro. Mas tinha medo. Pegou um colar de ouro que havia ganhado de casamento do meu pai e foi para a rua. Após conseguir vendê-lo, ela passou a mão na barriga e me disse: “nós vamos conseguir”. O colar da minha mãe foi o primeiro presente do meu pai para mim. E conseguimos.

Minha mãe até hoje é meu pai também. E meu pai foi durante todos estes anos um mistério. Eu era levado e um dia quebrei a pipa do meu irmão. Ele me colocou de frente para o Cristo com os braços abertos. Foi minha primeira crucificação. A vida traria outras. Mais tarde, perguntei para ele o que era Deus. Não lembro a resposta. Não importava. Mas ele sorriu.

Agora, de tantas coisas me lembro. Faço esse exercício na tentativa de criar um mundo onde estejamos juntos outra vez. Como aquela pescaria que ele havia me prometido e que de tanta vontade, adoeci. Dez dias com a garganta inflamada na beira do rio, dentro de uma barraca. Meus melhores dez dias com meu pai.

Olho mais um pouco e me vejo andando pequenino, a tomar sua camisa e seu cheiro, seu tamanho, quando ele chegava do trabalho. Eu a pôr os pés em suas botas e me sentir seguro ali. Ainda não sabia escrever, mas já sabia que era homem.

Ele me ensinou a pôr o anzol na linha, a andar de bicicleta sem rodinha, a mergulhar e a pular de ponta. Como eu tinha orgulho disso. E como fui orgulhoso em nunca deixá-lo saber. Ao invés dos lutos, preferia cantar. Achava que a música era melhor exorcista que o silêncio e o choro. Teve tudo o que queria.

Também me lembro de quando ele me punha de castigo e de como eu ficava emburrando o amaldiçoando em silêncio. Eu com bico; ele firme, a me mostrar que não adianta, que ser bruto não é o melhor jeito de vencer. Tive o peso de seu braço em mim e chorei. Mas tantas vezes aquela mão pesada foi a que me deu banho e limpou minhas feridas quando era eu a cair da bicicleta. E ele sempre me chamava de molenga nessas horas. Era seu jeito de me alertar que rir de si mesmo nas quedas é tão importante quanto rir sozinho durante nossas conquistas.

Dos que conheci, foi o que mais lutou pelos que ele adorava. Dos que conheci, foi o que terminou sem nada. Porque se para dizer o que é uma vida cheia e rica for preciso contar os bens, então meu pai viveu como um miserável. Mas se a riqueza for sentir necessidade de pouco e a felicidade for saber gozar com o que temos, com o que não nos falta, meu pai foi alguém que viveu como um sábio: aproveitou seu corpo, sua beleza, sua simplicidade e ganhou o amor da mulher mais admirável que eu já conheci; ele também. Tivemos sorte os dois.

E agora no hospital, me pergunto: o que determina que a vida de alguém não foi em vão, que tenha valido a pena? A resposta numa foto. Que milagroso, como um pequeno retrato tem o poder de mudar o sentido que às vezes nosso destino insiste em construir com tanta força. A foto de meu pai com sua neta. Ele com 64 anos. Ela com sete dias. Um olhando para o outro como quem descobre um tesouro. E ambos sem saber disso. Um, a imagem do projeto que se encaminhava para o fim, das surras e marteladas que levara; a certeza do crepúsculo que vinha. A outra, a pequena aurora, o testemunho do vir a ser. Não sei o tempo que durou aquele instante, mas é assim mesmo. Os momentos mais intensos de nossas vidas são aqueles que não fazem diferença perguntar pelas horas. Meu pai havia encontrado sua resposta, seu tempo de recomeçar; havia reencontrado seu orgulho. Diante de uma vida de tantas perdas e desencontros, estava, enfim, em paz, sem precisar de mais nada. Só estava ali.


Tivemos uma única conversa em todos estes anos. Eu tinha 17 naqueles dias. E foi o bastante. Ouvi a história de alguém que veio antes de mim e vi nela as misérias e as glórias que esperam cada um dos que possam ter a sorte de vivê-las. Foi preciso que ambos vivessem muito, tudo para poder dizer e aceitar que, no fim, não conseguimos ser pai e filho. Mas tivemos a sorte, de novo, de nos tornarmos amigos. Havíamos encontrado aquele tipo raro de amor que só mora na amizade, no desapego, que não pede nada em troca. Estávamos felizes pelo simples fato do outro existir. Logo comigo, que nunca achei que meu pai poderia ser meu mestre, encontrei naquele senhor tão magro no leito do hospital um companheiro para meu copo, para meu choro. E era eu, desta vez, que segurava sua mão e lhe sorria. Quem sabe ele tenha conseguido notar meu obrigado. Quem sabe.

Hoje é 10 de junho. Um dia bonito, sem nuvem no céu. O sol ainda está nascendo e não faz frio. Meu pai morreu nesta manhã, após 28 dias numa UTI, lutando pela vida, nos dando o tempo para nos despedir, para nos gostar, para nos vermos de novo de um jeito totalmente inédito. A última vez que o vi, dois dias antes, antes que terminasse o horário das visitas, tirei minha mão da dele e, saindo, meio de lado, disse eu te amo. Não olhei para os olhos dele. Não sei se ele viu ou ouviu. Foi o único jeito que consegui. No dia em que meu pai morreu, nesta terça-feira, foi assim que o sol se pôs.


À memória de José Cabral de Mello *4 de março de 1944 + 10 de junho de 2008

Por Renato Cabral
@CabralDiz
oruminante@gmail.com

 

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8 Responses to Um pôr-do-sol para meu pai

  1. Naiara says:

    O silêncio vale muito neste momento…
    Meu coração se aperta e abaixo a cabeça… consolo.

  2. Carná says:

    Um dos melhores textos que já li. Pesado.

  3. Raul Tano says:

    Lembro desse texto numa Cult de alguns anos atrás.
    Virei seu fã nesse dia. Fodástico esse texto.

  4. Fico sem palavras quase sempre que leio seus textos pela qualidade deles, mas esse me deixa sem reação pela emoção e beleza de tudo.
    Parabéns por tudo que você produz, parabéns pela vida ao lado do seu pai! Tenho certeza que ele sempre sentirá orgulho de você.

  5. Flávio Soares says:

    Pude extrair um pouco do nectar que alimentava aquela família, mesmo que em poucos momentos junto com Renato e seu pai. Dos meus amigos e colegas de faculdade, o autor desse lindo texto foi sempre uma inspiração para mim. Um jovem desbravador das belas coisas da vida. Isso não aprendeu em sala de aula, mas na sala de casa, e em todos os lugares e momentos compartilhados com o seu herói, hoje no céu!
    Mesmo rejeitando o título de jornalista, Renato sempre será um dos melhores para mim, consegue esculpir verdadeiras obras de arte, e não podia ser diferente, já que é um apaixonado pelas palavras, regadas sempre de muito sentimento.

  6. Família é Sagrado!
    É onde aprendemos ou não a ser gente! Felizes aqueles que nascem de pais preparados, que amam seus filhos! Que pena que nem todos os filhos tenham a mesma sorte, e que pena que alguns filhos não façam por merecer seus pais….pena….
    Por isso que falo…..a família tem o poder de transformar o mundo, pois o bandido, o corrupto, o assassino foi um dia um bebê, uma criança, um adolescente…..enfim…..
    Família é Sagrado!
    Aqui nesse texto, encontramos a alegria, a dor, o arrependimento talvez, a saudade, a felicidade, o aprendizado, a tristeza, o pai, a mãe, o molenga……
    Família é Sagrado!
    Fico aqui imaginando um texto, mas dessa vez de um adulto que não teve a mesma sorte….o que será que iríamos ler?
    Em tempo lhe confesso…um dia passarei por isso quem sabe…..
    E a dor, a tristeza, a saudade….bem..não será fácil…mas….
    Hoje também tenho o desafio.
    O desafio de ser pai para meu filho! Já estou no meu terceiro ano.
    Espero ter a mesma competência do meu pai, pelo êxito que teve….já que todos se tornaram gente…
    Sagrada Família!

    Pbns Cabral, um cara que diz….

  7. Tem alguém aí? Minha voz ressoou em uma sucessão de ecos distintos com a caridade de quem queria recompensar o vazio. Instantes depois a voz autoral de José Luis Peixoto cuspiu do infinito:

    “Não vás. E não fui. Ainda que todo o dia, toda a vida, tivesse esperado aquele instante, único entre todos os instantes, ainda que tivesse imaginado o mundo ao pormenor depois da fronteira pequena daquele instante, não fui. Não vás. Ainda que se tivesse levantado uma cegonha a planar como um abraço que nunca demos, mas que julgámos possível, ainda que todo eu a tenha olhado, ainda que lhe tenha dito espera por mim, hoje vou buscar-te, ainda que o crepúsculo nos tenha visto onde só vão os mais sinceros, entrei neste quarto, e deitei-me nesta cama, e deixei que o instante único passasse indistinto e que toda a minha vida se tornas­se um lugar penoso de instantes desperdiçados, instantes desperdi­çados antes do tempo, durante o fastidioso do seu tempo, depois da memória má do seu tempo, no tédio de não ter e de não esperar nada.

    Não vás. E não fui. (…)

    Abro e fecho a porta da rua. A noite é como a conheço: negra e profunda, a isolar-me dentro de si e a dizer-me que também eu sou a noite que a noite é. Não ponho as mãos nos bolsos, deixo-as e deixo os braços. Levanto a cabeça e olho a noite no céu, não as estrelas, mas o espaço negro que as separa.”

    José Luis Peixoto in Nenhum Olhar

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