Daí eu tava aqui pensando (fumacinha de queimado)… Interessante como um dos nossos maiores medos com relação à web, aquele de que a internet iria nos afastar das pessoas, se tornou realidade. Parece um paradoxo já que vivemos o oposto (as tantas direct messages, os infinitos posts e compartilhamentos, o curtir gratuito), mas a ilusão é só uma ilusão. Explico, ou tento. O efeito das mídias sociais é exatamente esse: afastamento e repulsa no fundo, ou na brutal superficialidade na qual ela esbarra e não consegue quebrar.
De certa forma, nos tornamos íntimos das pessoas, próximos demais até. Agora conhecemos suas cores, suas preferências, suas dores, seus humores, suas férias, suas feridas, seus amores e até suas mentiras contadas nos álbuns de fotos. E é esse o problema. Acabado o mistério, vem a rotina, o mais do mesmo. Uma rotina recriada a todo instante pela velocidade com que as páginas se atualizam; daí a loucura de tudo e a nossa, principalmente.
Porque nem sempre o que gera comunhão e compaixão é ser do mesmo grupo, é fazer parte. Às vezes trancados entre as mesmas paredes, nos resta ver os outros como o inferno. Estamos todos num relacionamento matrimonial de massa. Não suportamos mais a mesma cama. Fingimos o sorriso quando na mesma mesa. Que curioso. E que terrível, porque qualquer tentativa de uma amante é só arrumar uma nova esposa. Não há escapatória. Passado o tempo da paixão, inevitavelmente vem o tédio e a falta. E, claro, a culpa. A culpa no outro pelo que eu não sou. Nem nossa inveja é forte e autêntica o bastante. Ela dura só o tempo de um F5 na página.
Por isso toda segunda-feira é a mesma ladainha dos reclamões e pseudo-desperdiçados gritando porque acham que merecem algo do mundo. É por isso que anda tão difícil olhar para os outros na página ao lado… pras suas fotos, pras suas fofocas, pras coisinhas que dizem… E aí o desprezo, o desgosto… igual àquilo que com o tempo nasce entre um casal e faz dos dois familiares desconhecidos.
Só que a coisa é ainda pior. Porque com os outros você pode se desligar, dar tchau, fugir, deletar. Mas com a gente mesmo não é possível. Que grande terapeuta, que grande espelho se tornou o Facebook, o Twiiter. Agora nos vemos todos os dias e quando olhamos pro nosso histórico vemos quão rasteiro é o rastro que deixamos. E se há um erro é insistir para ir fundo nesse meio, esquecendo que por definição ele é só um infinito que não cobre nossa canela.
Nossa presença virtual virou preguiça vital. Está próxima de doentia. Dá a impressão de ser tanto, mas é realmente nada ou muito pouco. Fala mais do nosso desespero, da nossa inconstância, carência e vaidade do que de qualquer plano de salvação ou fuga. Pra cada momento de mobilização e ajuda comunitária, um milhão de fotos sobre o nosso vazio será postada. E ficaremos soterrados como sempre de nada, sobre um nada. E aí sozinhos entre essas paredes, o inferno passa a ser nós mesmos.
Mas isso não é uma tese, por favor… é só um desocupado, desempregado, ruminando antes do fim do mundo, numa terça à tarde, pensando alto na imensidão da rede. E mesmo que isso tenha um eco, não importa. Não faz a menor diferença. É por isso também que às vezes é tão interessante sair à rua e vê-la vazia. Tomara que retomemos o gosto pela solidão autêntica e voluntária.
Renato Cabral
oruminante@gmail.com
@CabralDiz






TUDO Q VC ESCREVEU , NESSE TEXTO SURTADÍSSIMO, FAZ SENTIDO, É PRECISO QUE USEMOS ESSAS REDES SOCIAIS PARA FINS SOCIAIS E HUMANITÁRIOS , PRA QUE DESPERDIÇAR TANTA ASSUNTO, TANTA INFORMAÇÃO, SE PODEMOS , SALVAR VIDAS E AJUDAR VERDADEIRAMENTE PESSOAS, QUE PRECISAM DO NOSSO CLIQUE EM COMPARTILHAR , PARA QUE POSSAM OBTER UM VALOR MINIMO DE AJUDA PRA SALVAR POR EXEMPLO UMA CRIANÇA COM ALGUMA DOENÇA, ESSE SIM É O EFEITO POSITIVO DA GLOBALIZAÇÃO, DA INTERNET.
Como sempre ótimo texto Cabral, qualquer observação que faça sobre vai ser mera redundância. Lendo seu texto lembrei desse quadrinho, acho que já tenha visto http://www.bookofjesus.org/images/f9fw26b3ztyyt36u0b.jpg