Minha mãe, eu e o fim do mundo.

Eu no colo de minha mãe, mesmo que ela esteja no meu.

Aproveito que é o fim do mundo, mãe, e te escrevo. Ao meu lado, um cigarro, uma lata de cerveja, que já é a quinta, e o desconcerto de não saber começar. Fumo por imitação. Bebo por declaração. E me envergonho porque mostrar o boletim para você sempre foi meu maior orgulho. E mais do que tudo porque adoro as desculpas, você sabe melhor que eu.

E já no segundo parágrafo choro. Porque foram precisos 32 anos para que este texto pudesse sair, impreciso e inconstante como eu. Um parto só acontece realmente quando o cordão umbilical se parte. E ainda estou preso a você. Deve ser por isso que até hoje seu choro é o meu; e meu sorriso, o seu. Por isso falo engasgado, enforcado de uma gratidão que ao invés de me fazer sorrir me soa como falta.

Poderia te contar como cheguei até aqui. Mas a verdade é que só você pode me contar como chegamos. Porque desta viagem não sou piloto. Desta nave espacial descontrolada, que viaja por acasos e lances de sorte, somos apenas testemunhas. Para não nos perdermos no espaço entre o nada que a vida insiste em dar, nos demos as mãos. Deve ser por isso que “mãe” se parece com “mão”.  Porque estar de mãos dadas é como estar no colo de uma mãe.

Ao final deste texto, estarei partido e você ainda não terá partido. Mas estaremos grudados por uma película tão fina, que nela não caberá a palavra amor nem saudade. Apenas aquele olhar simples que nos depositamos quando um acorda primeiro que o outro, e olha atento a cama alheia em busca de uma companhia adormecida, de um cuidado inédito. E esse olhar é sempre seu, mãe. Porque os anjos da guarda sempre amanhecem antes.

Então, só nos resta começar lá daquele momento em que não participei, mas que já fazia parte. Eu nasci num dia 27 de agosto. No meio de todas as desgraças que o ano trazem. Seu primeiro presente pra mim veio do meu pai. Quando você não tinha o dinheiro para o parto, o colar de ouro que ele te deu de casamento serviu muito bem. Eu era só uma multiplicação descontrolada de células, mas ainda posso sentir você passando a mão na barriga e me dizendo que iríamos conseguir. E, que sorte, mãe. Nós conseguimos.

A primeira prova de que não vou morrer invisível é que nasci. Poderia não ter nascido. Porque sou o filho do meio e antes de mim morreram quatro de abortos espontâneos. Que sorte, de novo. Pode não ser um sinal. Pode não ser nada. Mas dessa sorte se fez esse elo que moldou nossa sensibilidade. E por sermos sensíveis demais, somos também fracos demais. Porque as dores do mundo se acumulam duas vezes em cada um. E estar no mundo e de olhos abertos dói muito.

Você, como poucos, sabe o valor que as letras têm para mim. Elas foram o único remédio para minha vida; foram meu jeito de exorcizar os demônios que me acompanham e de alguma forma me dão as muletas. Pode parecer pouco. E é. Mas que bom fazer muito dessa miséria. E é tudo que tenho para te dar. Só este texto, um embaralhado de sensações. Mas o que seria da vida sem essa possibilidade de sorriso quando conseguimos sair do labirinto e deciframos os enigmas?

Tem me faltado o abraço, a oportunidade e o jeito para uma conversa; a chance de um beijo mais demorado; aquele tempo na cozinha para ouvir suas dores e a sua solidão. Mas saiba, você não está sozinha. Eu te vejo, mãe, mesmo que não te alcance. Já não dá mais para ter culpa dos caminhos que minha vida tomou, nem das curvas que a minha cabeça tem, tudo isso que as vezes me deixa bobo, doente, mais infantil e pequeno que a idade permite ou que minha vontade dá conta. Mas estou com você.

Há muito tempo deixei de rezar. O mundo que está além deste agora, perverso e definitivo, se existir, não me interessa. Sempre amei meu pai, mas ele está morto. Resta os vivos. Resta nós. Não rezo para os que se foram, mas não há um momento que não deixo de pedir para continuar mais um pouco essa caminhada com os que ficam.

É uma pena que o mundo vai acabar e que você não vai ficar a velhinha delicada que sempre desconfiei. Seria tão bom poder ir te visitar e ter a saudade do abraço que te nego todos os dias, mesmo morrendo de vontade. Porque você sabe, a saudade não está na ausência. Saudade é quando a gente sente a presença do outro com tanta força que não quer que isso acabe.

Nunca acreditei em Deus, mãe. Porque sempre tive para mim que só há um deus para o qual se deva rezar: a Sorte. E hoje eu sei o nome dessa sorte. Ela se chama Ana Maria. Eu, ateu; você, crente por dois, tampando os buracos da minha descrença com um sorriso pro céu. Porque se você não sabe, mãe, para toda sorte há também uma ironia. E esta é a minha.

Que bom é poder te escrever nas vésperas do fim do mundo. Porque para toda vida há mesmo um fim. Mas para toda a sorte, só um milagre. E que milagre mais lindo nós aqui, juntos, a nos olhar no meio deste mistério, que é estar num planetinha, rodeando uma estrelinha, numa galáxia que é uma entre bilhões, de apenas um universo que pode ser um entre tantos… Isso é a sorte das sortes, mãe. Isso é o amor que um filho às vezes consegue retribuir a sua mãe.

E se dermos a sorte do mundo não acabar, minha velha, minha amiga, que você saiba, o amor já nos salvou muito antes da notícia de que isto tudo iria voltar a ser pó. Isso não muda nada, claro. Mas dá sentido a tudo. Assim, juntos, até o fim…

Renato Cabral
oruminante@gmail.com
@CabralDiz

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13 Responses to Minha mãe, eu e o fim do mundo.

  1. Carol says:

    É sempre intenso o amor de uma mãe pelo filho. Mas é lindo ler assim o amor de um filho pela mãe.

  2. Lasinha Nêsia de Azeredo Cabral Soares says:

    Renato,
    para você, foram as letras que lhe deram alento, para mim, foi a música e é a música, tocada, cantada, ouvida, vivida. Cada um de nós tem o seu atalho e ai de nós se não lançarmos mão dele nos caminhos tortuosos desta vida.
    Parabéns pelo seu blog, pelos seus escritos, que além de lhe servirem como companhia, são, para nós, leitores, um enlevo.
    Continue, não pare. Há muito que abrir a mente e o coração.
    um abraço,
    Lasinha

  3. Nina says:

    Olá Renato

    Sabes que com a redação clara e bela para expressar sentimentos, emoções, nosso amor, como esta que escrevestes para tua mãe, alentam a nós que não temos esse talento, pois estas tuas palavras são muitas das que certamente queremos dizer também para as nossas mães. A minha também perdeu dois filhos (minha irmã e meu irmão), hoje só tem a mim de filha, tem cinco netos (filhos desses meus irmãos, os únicos que tive), tem um peramento abençoado e com sua sabedoria e a graça de Deus fará 90 anos em meados do ano que vem.
    Um grande abraço pra você. Felicidade. Um beijo carinhoso pra sua mãe.
    Nina (amiga do Lu de Laurentiz).

  4. Ah menino! Lindo, sincero e profundo… Quanta riqueza de sentimento transmitida em suas palavras…. Sorte sua em ter sua mãe, que com certeza foi quem plantou essa semente de sensibilidade em seu coração… Sorte de sua mãe do mundo não ter acabado antes dela ler este texto!! Missão cumprida Dona Ana Maria!

  5. Sílvia Arantes says:

    Cabral, que texto lindoooooooooo, mais um de tantos né, você fala com o coração é o sentimento mais lindo do mundo, você escreve pra todos nós, quando li o texto, me identifiquei em muitos momentos… Não só a sua mãe, como a minha e de tantos outros, é a mulher e o homem de nossas vidas!!! Linda homenagem a sua mãe, e confesso que no fundo que senti minha mãe homenageada também, mesmo que ela ainda não saiba, mas vou fazer questão de ler esse texto pra ela….Um feliz 2012 repleto de paz, amor, saúde e benção em sua vida e de toda sua família! bjoooooo…Adorooooooo

  6. Existem frases nessa vida que são difíceis de mais de se dizer. Das desculpas sinceras ao eu te amo, sempre engasgamos. Principalmente quando é para nossa mãe, nosso pai, nossos irmãos.
    Parabéns!
    Conseguir falar muitas vezes é mais difícil do que se imagina.
    Transcrever de forma tão profunda, é mais ainda.

    Grande Abraço.

  7. Mara Faria says:

    querido Renato… que lindo seu texto. Um beijo pra você e outro pra sua mãe.

  8. Raquel Rodrigues says:

    Perfeito !!!!

  9. Leonardo Ota says:

    Parabéns Renato, você conseguiu me emocionar com essas palavras. Muito obrigado pelo belo e excelente texto.

  10. Bárbara Camozzto Rabelo says:

    Você é intenso e teus textos transpiram teus sentimentos. Gosto muito.

  11. Sempre é dificil fazer qualquer comentário nos seus textos Cabral, tudo o que pode ser dito sobre o tema você já disse e se expressou muito bem. Creio que já vá fazer uns 10 anos que leio seus textos e sempre me surpreendo, logo no começo queria escrever como você, mas vi que só escrevem coisas tão boas quem escreve com essa paixão que você escreve.

  12. Laura Reis says:

    ai menino, não faz assim comigo.

  13. Neto says:

    É, nego… falar oque?

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