Ir

photo-30Partir, minha querida, é o parto dos pés.
É quando os pés partem e partem o chão.
De um lado, os que vão.
Do outro, toda solidão.

Ficar é o contrário de ir.
É também um modo de partir.
O jeito mais triste de ser.
Viver em marcha ré.

Não há como parar um sorriso.
Nem o caminho que ele desenha no rosto.
Porque RiR é sempre ir…
Se você for pra frente ou pra trás.
Tanto faz.

A alegria é a largada para onde queremos voltar.
O lugar de sempre onde a gente põe o futuro.
O lugar que sobra quando a gente inventa um passado.

Me proponho a tarefa de te seguir.
E percorrer as trilhas de sua fuga.
E é assim que me encontro.
Nesse labirinto.
Onde descubro que nesses traços que sempre vão,
E nunca chegam a lugar nenhum,
Está desenhada minha face.
Uma cara sem um caminho.
Nem uma saída.

Gengivas precisam dos dentes para sorrir.
Assim como a dor também, para fazer doer.
Então, um pouco de respeito pelas bocas abertas.
E as que cantam.
Mas também pelas tantas banguelas.
E as que sangram.

Quando você partir.
Terá deixado uma boca deserta.
Já sem dente nem dor.
Só com a certeza da espera.
E de uma gengiva amarela.

Ainda espero o homem que fui voltar quando você fizer o caminho contrário.
O contrário de ir.
Para quem sabe, um dia, de novo, eu posso voltar a sorRiR.

* Por Renato Cabral

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One Response to Ir

  1. Mariana says:

    Li ontem… mas tive a impressão de já ter lido há muito tempo atrás.
    Penso que se partir for o parto dos pés, talvez a gente pressinta esse momento com pequenas contrações que vão aumentando e ganhando força até que te obrigam a ir embora. A dor de parir será igual a dor de partir?
    O céu está cinza em SP, mas é um dia lindo. Porque você voltou.
    Obrigada, meninos.

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