Ainda tão pequena

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Como uma paisagem tão antiga
Numa viagem esquecida,
Me recordo deste poema nunca escrito.
E faço esta promessa de lembrar.
De te escrever uma vez mais…

Busco por um instante a honestidade pra me contar.
E descubro que só pelas metades soube viver.
É quando você passa a me ouvir.
E eu a entender.

Sou esta lousa já tão escrita,
Onde você me acha e se põe a ocupar esses pequenos espaços que nos faltam.
Você, uma mão virgem à espera de um desenho inédito.
Eu, ansiando que em suas linhas possa ver meu rosto.

Você, ainda só um rabisco;
Eu, a fragilidade destes traços tardios.
E tudo dá a forma ao cercado da minha agonia.
E à insônia da sua solidão.

Dois desocupados a ocupar a mão no mesmo lápis;
Quebrado e sem ponta.
Como a esperança do nosso encontro.
O texto que só será escrito no silêncio do nosso olhar no escuro.
E na mesma vontade de dividir o que não podemos falar.

Descemos juntos ao calabouço, então.
Porque é no escuro que nossas mãos sabem olhar.
E nos encontramos de novo abstratos
E nos visitamos quebrados em nossos absurdos.

Nós como um baralho de cartas iguais.
Sem saída.
Sozinhos, sem ninguém pra nos marcar;
Ou nos jogar.

A lembrança de nossos amores nas canelas.
Como se fossem algemas esquecidas numa cadeia.
E cada um a olhar pro outro como se fossemos chaves.
Como se fossemos fáceis.

Como viveremos, minha querida?
Quantas vidas ainda a serem grifadas pelo caminho que cada texto faz.
Quantos versos proibidos na lousa dos outros.
Para de novo serem apagados.
Para sempre sermos perdidos.

Essa viagem e a gente junto.
Eu na proa gritando com o vento e o destino.
E você com a cabeça em meu colo a me lembrar
Que só podemos vencer o mar dormindo.

E agora esse ataque de sal aos olhos.
Uma correnteza de incertezas a pingar nossa cachoeira de medos.
Nós, aflitos por vitórias,
Por beber no fim da tarde o sabor do nosso sangue nos ombros do outro.
De onde nos suportamos.
De onde supomos ver melhor.

Dois atrasados numa viagem de ida…

Você partindo e eu me despedindo de ninguém na minha volta.
Para tentar te achar no meio do caminho.
De novo…
Onde deixo de estar no meio.
E encontro nas suas mãos as linhas do meu início.
E passo a ser mais.
A ser, enfim, mais que só a metade.
Eu, enorme, acolhido por você ainda tão pequena.

*por Renato Cabral (foto e texto)

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One Response to Ainda tão pequena

  1. Mariana says:

    Achei lindo. O poema, o sentimento nele contido, as fotos.
    Linda a felicidade estampada no teu sorriso, lindo também o olhar da linda moça ao seu lado, com olhos tão brilhantes que faziam brilhar os teus.
    E é ainda mais bonito ver que está tão inspirado.
    Senti falta disso.
    A riqueza dos teus textos cobre todo buraco que a tua ausência cavou.

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