
Começo tonto. De novo, mais uma vez. Não bote reparo. Nem me lembre se eu não me lembrar...
Comecei aos 30. Comecei com a nicotina, com seus derivados, os sedativos. Continuei com o álcool, não moderado. Mais apressado. Comecei a me repetir. Comecei a me enamorar pela gordura localizada, pela boca fechada. Mas as gengivas rosas nunca me deixaram. Os alagados pelo relógio, acompanhei.
Comecei a deixar de me preservar, me consumindo como um churrasco. Deleite de fim de semana, pecado de segunda. Embrulho de Natal. Comecei a beber, quase, quase todos os dias. De água a vocês. Comecei a tomar bioquímicos, moderadores de um estado incontrolável, interminável. Comecei a aceitar as contradições. Os tantos nãos, as contramãos.
Comecei a perder a fé. Daí, passei a aceitar. Comecei a ficar sem graça, sem grana, a pé, a ficar de porre de perfumes e shopping, a ficar sem saco, seco, safado. Comecei a ficar velho. Comecei a cheirar tudo pela frente, igual menino. De uma só vez, comecei o que nunca tinha feito, a ver o que tinha visto. Comecei a lembrar de histórias não vividas, de vidas não lembradas. Comecei a me escutar, a me masturbar do lado de lá.
Comecei a detestar tudo que não dizia respeito a mim. E como tudo falava comigo, passei a falar mais de mim e, quem diria, a ouvir vozes. E a ser mais chato, claro. Comecei a ouvir as músicas dos outros e seus destinos. Cada caminho uma história, um desvario, testemunho da minha obra, de meu desvio, e da passagem dos tantos cordeiros abraçados, açucarados/cantadores durante a queda da cachoeira. Felizes inocentes burros. Mulas andantes a esperar um sol improvável. Bois babando pra Lua minguando.
Comecei a adorar as axilas com pêlos crescendo, os corrimentos rasteiros. Passei a ser escravo livre, consciente e autosuficiente, cheio de adjetivos pra minha subjetividade substantiva. Passei a desejar mais a querer tocar guitarra. A tocar com os dedos no ar.
Comecei a achar que minha mãe estava pra morrer e que já era hora de voar. Comecei a achar que tinha alcançado a riqueza. Sem emprego, sem nada. Só eu e a Via Láctea. Eu e minhas páginas cheias de autores e idas, de voltas sem ideias, saídas. Minhas nádegas surradas de tapas e bancos, de santos a me adorarem, a me adotarem, sem meu consentimento nem meu compromisso. Mas mordidas são bem-vindas. Eu e minha língua a encostar na memória mal cheirosa do não feito, dos defeitos, a reconhecer o gosto de tudo que achava terminal e amargo, digerível, ruminável. A me reconhecer ali. Na quase pá de cal.
Comecei assim, numa noite em claro, com um solo de latinhas familiar e encostado, com meus dedos me levando, com minha mão fervendo. Comecei como quem termina, feliz abandono, como quem já teve e é tarde, breve, cheio, barulhento e apressado. Pesado. Os quilos ganhados, as apostas no pulso. Caneta cheia de mal ditos, de rabiscos. Comecei a me fazer agora, antes de ontem e de amanhã.
Mas tive que esperar 30 anos pra poder juntar tudo isso, pra poder amontoar todas as promessas, rezas, riquezas, trepadas, abandonos num corpo que já não me resta. Esta capa/carcaça, manequim de caveria tem dono e mapa. Deixo pros invertebrados minha satisfação, minha graça, tudo que comecei e que não tem fim, que sou eu em mim, eu no mundo; eu devorado pelo começo de tudo que volta a ser coisa.
Por Renato Cabral |