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Eu?

Vai lá, num só ar. Prendeu? Fui.

Sou da espécie dos politeístas-poligâmicos-polissêmicos. Proletário quando o mês começa; paranormal quando termina. Mais romano que vitoriano. E meio médio lento ateu. Bobeou, dá eu.

Eu coiso. Mas não qualquer coisa. Só coisa nenhuma. Viver a saber coisas. Foder a meter coisas. Sou todo coisativo. Meu deus é um Ovo. Rezo pro Ovo. Meu ovo, meu pinto, projeto de galinha, de canja, imagem e semelhança de almoço de domingo.

Autoajuda e exorcismo para os dias de ventania. Cabeleira e despenteio para noites de vendaval. Bundas e tetas no carnaval. Sorriso que não cabe e olhar que não pisca; olho tudo, mas só vejo o Himalaia; Nepal.

Sou hedonista ortodoxo e indecente de esquerda. Nos solstícios, um incoerente moderado. Quando as folhas voltam a nascer, um inconsequente radical. Enfim, muito mais adjetívico adverbial que substantívico verbal.

Bom filho, mas péssimo namorado; pai enterrado. Ácido úrico, osso quebrado. Cicatriz de espinha e queda de cabelo. Das medalhas, me lembro mais das balinhas furtadas nas Americanas. Dos foras, chorei de verdade.

Numa viagem para a América do Sul de bike virei um “Coxa Bamba”. Nadando, pedalando e correndo por aí, me tornei um “IronMan”. Hoje faço dieta Herbalife. Já fiz livro e filmes, mas meu maior sucesso são meus discursos eloquentes durante o sono.

Beethoven, axilas, ipod e Pink Floyd. Falho, fálico, infantil. Kant, cântico, anal, imbecil. Síndrome do pânico e religião. Tentativa de revolução. Recuperação no fim de ano. Nenhuma redenção.

Ana Maria e Ana Clara. Mas cartas de amor nunca mais, por favor. Já fui pagodeiro e roqueiro. Agora sou suor na testa oleosa; dia inteiro. Bonito, mas pobre. Ruim de briga, mas bom de cama. Aspirante a amador. Armadura de desamor. Do ser ao tudo, melhor em nada. 

Eu? A viver de suspiros e improvisos. Entre a navalha e a gaita, eu. Entre a pinga e a tara, eu. Entre nós, a desgraça, a palma, a falta, que não é nossa nem é de graça.

De cá, me comem e tiram meu espasmo; meu sossego. De lá, me veneram   e bebem da minha seiva sagrada; seu castigo. Meu rumem é meu aflito, estômago amargo e maldito. Eu sem lugar diante do absurdo da porteira, impotente de atravessar, babando feito gente. Rumino pra ver quem sou e não chego lá.

Me sinto o último filho de Krypton, um Kal-el sem capa, gozador vira-lata de bairro classe média baixa. Apaixonado por este planeta que se resume ao quintal da minha casa. Um herói que não precisa salvar nada. Mas que segunda precisa ver seu corpo de aço virar gente a ir pro trabalho.

Macho? Cado. Paçoquinha? Duas! Pra criação e pra procriação. O resto? Te devo, pendura, meu irmão.

Renato Cabral – roteirista e redator; criatura e criador.

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